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BRASIL , Sudeste , CAMPINAS , Homem , Música , Esportes |
Meu Humor
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Créditos
Quadrilha
Façam os pares...
Preparem a saia rodada e o chapéu de palha...
A fogueira está acesa...
O céu está estrelado...
E a dança vai começar!
Você quer dançar uma bela Quadrilha?
Veja a ordem dos passos:
Caminho da festa.
Os cavaleiros cumprimentam as damas.
As damas cumprimentam os cavaleiros.
Cavaleiros ao meio.
Balanceio.
Faz que vai mas não vai.
Olha o duplo.
Cavaleiros do lado direito das damas.
Formar a grande roda.
As damas pra dentro cavaleiros pra fora.
Formar a grande estrela.
Caminho da festa.
Formar um grande círculo.
As damas com as mãos para trás.
Passar as damas para trás.
Caminho da festa.
Olha o túnel.
Formar grande roda.
Cavaleiros pra dentro damas pra fora.
Formar grande estrela.
Caminho da festa.
As damas passar os cavaleiros pra frente.
Olha a chuva.
Já parou.
A ponte quebrou.
É mentira.
Olha a cobra.
Já matou.
Direita com direita.
Damas ao passeio.
Cavaleiros ao passeio.
Passeio geral.
Vai começar o grande baile.
Começou o miudinho.
Entra os padrinhos.
O padriho com a noiva.
Baile Geral.
Caminho da roça.
O SAPATEIRO POBRE
Havia um sapateiro que trabalhava à porta de casa e todo o santíssimo dia
cantava. Tinha muitos filhos, que andavam rotinhos pela rua, pela muita
pobreza, e à noite, enquanto a mulher fazia a ceia, o homem puxava da
viola e tocava os seus batuques muito contente.
Ora defronte do sapateiro morava um ricaço, que reparou naquele viver e
teve pelo sapateiro tal compaixão que Ihe mandou dar um saco de dinheiro,
porque o queria fazer feliz.
O sapateiro lá ficou admirado. Pegou no dinheiro e à noite fechou-se com a
mulher para o contarem. Naquela noite, o pobre já não tocou viola. As
crianças, como andavam a brincar pela casa, faziam barulho e levaram-no a
errar na conta, e ele teve de lhes bater. Ouviu-se uma choradeira, como
nunca tinham feito quando estavam com mais fome. Dizia a mulher:
- E agora, que havemos nós de fazer a tanto dinheiro?
- Enterra-se!
- Perdemos-lhe o tino. É melhor metê-lo na arca.
- Mas podem roubá-lo! O melhor é pô-lo a render.
- Ora, isso é ser onzeneiro!
- Então levantam-se as casas e fazem-se de sobrado e depois arranjo a
oficina toda pintadinha.
- Isso não tem nada com a obra! O melhor era comprarmos uns campinhos.
Eu sou filha de lavrador e puxa-me o corpo para o campo.
- Nessa não caio eu.
- Pois o que me faz conta é ter terra. Tudo o mais é vento.
As coisas foram-se azedando, palavra puxa palavra, o homem zanga-se,
atiça duas solhas na mulher, berreiro de uma banda, berreiro da outra,
naquela noite não pregaram olho.
O vizinho ricaço reparava em tudo e não sabia explicar aquela mudança.
Por fim, o sapateiro disse à mulher:
- Sabes que mais? O dinheiro tirou-nos a nossa antiga alegria! O melhor era
ir levá-lo outra vez ao vizinho dali defronte, e que nos deixe cá com aquela
pobreza que nos fazia amigos um do outro!
A mulher abraçou aquilo com ambas as mãos, e o sapateiro, com vontade
de recobrar a sua alegria e a da mulher e dos filhos, foi entregar o dinheiro e
voltou para a sua tripeça a cantar e a trabalhar como de costume.
AS IRMÃS GAGAS
Uma mãe tinha três filhas e todas eram tatas. Para fazer que elas não perdessem casamento, disse-lhes:
- Meninas, é preciso estarem sempre caladas quando vier aqui a casa algum rapaz. Doutro modo, nada feito!
De uma vez, trouxe-lhes um noivo para ver se gostava de alguma delas, e tinha-se esquecido de repetir a recomendação às filhas. Estavam, pois, elas na presença do noivo, que ainda não tinha dado sinal para quem ia a sua simpatia, quando uam delas sentiu chiar o lume. E logo disse muito lampeira:
- Ó mãe, o tutalinho fede (isto é: «O pucarinho ferve»)!
Diz dali a outra irmã:
- Tira-le o této e mete-le a tolé (isto é: «Tira-lhe o testo e mete-lhe a colher»).
A última, zangada por ver que as irmãs não obedeciam à habitual recomendação da mãe, exclamou:
- A mãe nam di que não falará tu? Pois agora não tasará tu (isto é: «A mãe não disse que não falarás tu? Pois agora não casarás tu)!
O noivo, assim que viu que todas elas eram tatibitate, desatou a rir e fugiu pela porta fora.
A PEQUENA SEREIA

Adaptado do conto original de Hans Christian
Andersen
Muito longe da terra, onde o mar é muito
azul, vivia o povo do mar. O rei desse povo tinha seis filhas,
todas muito bonitas, e donas das vozes mais belas de todo o mar,
porém a mais moça se destacava, com sua pele fina e delicada como
uma pétala de rosa e os olhos azuis como o mar. Como as irmãs, não
tinha pés mas sim uma cauda de peixe. Ela era uma sereia.
Essa princesa era a mais interessada nas histórias sobre o
mundo de cima, e desejava poder ir à superfície; queria saber tudo
sobre os navios, as cidades, as pessoas e os animais.
— Quando você tiver 15 anos — dizia a avó —
subirá à superfície e poderá se sentar nos rochedos para ver o
luar, os navios, as cidades e as florestas.
Os anos se passaram... Quando a princesa completou 15 anos
mal pôde acreditar. Subiu até a superfície e viu o céu, o sol, as
nuvens... viu também um navio e ficou muito curiosa. Foi nadando
até se aproximar da grande embarcação. Viu, através dos vidros das
vigias, passageiros ricamente trajados. O mais belo de todos era
um príncipe que estava fazendo aniversário, ele não deveria ter
mais de 16 anos, e a pequena sereia se apaixonou por ele.
A sereiazinha ficou horas admirando seu príncipe, e só
despertou de seu devaneio quando o navio foi pego de surpresa por
uma tempestade e começou a tombar. A menina viu o príncipe cair no
mar e afundar, e se lembrou de que os homens não conseguem viver
dentro da água. Mergulhou na sua direção e o pegou já desmaiado,
levando-o para uma praia.
Ao amanhecer, o príncipe continuava desacordado. A sereia,
vendo que um grupo de moças se aproximava, escondeu-se atrás das
pedras, ocultando o rosto entre os flocos de espuma.
As moças viram o náufrago deitado na areia e foram buscar
ajuda. Quando finalmente acordou, o príncipe não sabia como havia
chegado àquela praia, e tampouco fazia idéia de quem o havia
salvado do naufrágio.
A princesa voltou para o castelo muito triste e calada, e não
respondia às perguntas de suas irmãs sobre sua primeira visita à
superfície.
A sereia voltou várias vezes à praia onde tinha deixado o
príncipe, mas ele nunca aparecia por lá, o que a deixava ainda
mais triste. Suas irmãs estavam muito preocupadas, e fizeram
tantas perguntas que ela acabou contando o que havia acontecido.
Uma das amigas de uma das princesas conhecia o príncipe e sabia
onde ele morava. A pequena sereia se encheu de alegria, e ia nadar
todos os dias na praia em que ficava seu palácio. Observava seu
amado de longe e cada vez mais gostava dos seres humanos,
desejando ardentemente viver entre eles.
A princesa, muito curiosa para conhecer melhor os humanos,
perguntou a sua avó se eles também morriam.
— Sim, morrem como nós, e vivem menos. Nós podemos
viver trezentos anos, e quando “desaparecemos” somos
transformadas em espuma. Nossa alma não é imortal. Já os humanos
têm uma alma que vive eternamente.
— Eu daria tudo para ter a alma imortal como os
humanos! — suspirou a sereia.
— Se um homem vier a te amar profundamente, se ele
concentrar em ti todos os seus pensamentos e todo o seu amor, e se
deixar que um sacerdote ponha a sua mão direita na tua,
prometendo-te ser fiel nesta vida e na eternidade, então a sua
alma se transferirá para o teu corpo. Ele te dará uma alma, sem
perder a dele... Mas isso jamais acontecerá! Tua cauda de peixe,
que para nós é um símbolo de beleza, é considerada uma deformidade
na terra.
A sereiazinha suspirou, olhando tristemente para a sua cauda
de peixe e desejando ter um par de pernas em seu lugar. Mas a
menina não esquecia a idéia de ter uma alma imortal e resolveu procurar a bruxa do mar, famosa por tornar sonhos de jovens
sereias em realidade... desde que elas pagassem um preço por isso.
O lugar onde a bruxa do mar morava era horrível, e a princesa precisou de muita coragem para chegar lá. A bruxa já a esperava, e foi logo dizendo:
— Já sei o que você quer. É uma loucura querer ter
pernas, isso trará muita infelicidade a você! Mesmo assim vou
preparar uma poção, mas essa transformação será dolorosa. Cada
passo que você der será como se estivesse pisando em facas
afiadas, e a dor a fará pensar que seus pés foram dilacerados.
Você está disposta a suportar tamanho sofrimento?
— Sim, estou pronta! — disse a sereia, pensando
no príncipe e na sua alma imortal.
— Pense bem, menina. Depois de tomar a poção você nunca
mais poderá voltar à forma de sereia... E se o seu príncipe se
casar com outra você não terá uma alma imortal e morrerá no dia
seguinte ao casamento dele.
A sereiazinha assentiu com a cabeça e, sem dizer uma palavra,
ficou observando a bruxa fazer a poção.
— Pronto, aqui está ela... Mas antes de entregá-la a
você, aviso que meu preço por este trabalho é alto: quero a sua
linda voz como pagamento. Você nunca mais poderá falar ou
cantar...
A princesa quase desistiu, mas pensou no seu príncipe e pegou
a poção que a bruxa lhe estendia. Não quis voltar para o palácio,
pois não poderia falar com suas irmãs, sua avó e seu pai. Olhou de
longe o palácio onde nasceu e cresceu, soltou um beijo na sua
direção e nadou para a praia.
Assim que bebeu a poção, sentiu como se uma espada lhe
atravessasse o corpo e desmaiou. Acordou com o príncipe
observando-a. Ele a tomou docemente pela mão e a conduziu ao seu
palácio. Como a bruxa havia dito, a cada passo que a menina dava
sentia como se estivesse pisando sobre lâminas afiadíssimas, mas
suportava tudo com alegria pois finalmente estava ao lado de seu
amado príncipe.
A beleza da moça encantou o príncipe, e ela passou a
acompanhá-lo em todos os lugares. À noite, dançava para ele, e
seus olhos se enchiam de lágrimas, tamanha dor sentia nos pés.
Quem a visse dançando ficava hipnotizado com sua graça e leveza, e
acreditava que suas lágrimas eram de emoção.
O príncipe, no entanto, não pensava em se casar com ela, pois
ainda tinha esperança de encontrar a linda moça que ele vira na
praia, após o naufrágio, e por quem se apaixonara. Ele não se
lembrava muito bem da moça, e nem imaginava que aquela menina muda
era essa pessoa...
Todas as noites a princesinha ia refrescar os pés na água do
mar. Nessas horas, suas irmãs se aproximavam da praia para matar a
saudade da caçulinha. Sua avó e seu pai, o rei dos mares, também
apareciam para vê-la, mesmo que de longe.
A família do príncipe queria que ele se casasse com a filha
do rei vizinho, e organizou uma viagem para apresentá-los. O
príncipe, a sereiazinha e um numeroso séquito seguiram em viagem
para o reino vizinho.
Quando o príncipe viu a princesa, não se conteve e gritou:
— Foi você que me salvou! Foi você que eu vi na praia!
Finalmente encontrei você, minha amada!
A princesa era realmente uma das moças que estava naquela
praia, mas não havia salvado o rapaz. Para tristeza da sereia, a
princesa também se apaixonara pelo príncipe e os dois marcaram o
casamento para o dia seguinte. Seria o fim da sereiazinha. Todo o
seu sacrifício havia sido em vão.
Depois do casamento, os noivos e a comitiva voltaram para o
palácio do príncipe de navio, e a sereia ficou observando o
amanhecer, esperando o primeiro raio de sol que deveria matá-la.
Viu então suas irmãs, pálidas e sem a longa cabeleira, nadando ao
lado do navio. Em suas mãos brilhava um objeto.
— Nós entregamos nossos cabelos para a bruxa do mar em
troca desta faca. Você deve enterrá-la no coração do príncipe. Só
assim poderá voltar a ser uma sereia novamente e escapará da
morte. Corra, você deve matá-lo antes do nascer do sol.
A sereia pegou a faca e foi até o quarto do príncipe, mas ao
vê-lo não teve coragem de matá-lo. Caminhou lentamente até a
murada do navio, mergulhou no mar azul e, ao confundir-se com as
ondas, sentiu que seu corpo ia se diluindo em espuma.
AS CORES DO OUTONO

A pintora Rosa Ratinha pintava quase todos os seus quadros no estúdio. Só no Outono é que saía para pintar ao ar livre. O Outono era a estação preferida de Rosa. Havia tantos matizes surpreendentes na paisagem!
Certa vez, num belo dia de Outono, a pintora embalou tela, cavalete e tintas e foi passear para junto de um tranquilo lago não longe de casa. Conhecia um lugar bonito e plano em cima de uma rocha de onde tinha vista para os bosques e montanhas ao fundo. Aí montou o cavalete com a tela e começou a pintar com pinceladas generosas.
Na árvore oca que estava por detrás dela, morava um gnomo da montanha que a observava enquanto pintava.
— Isto é que é um quadro esquisito! — disse ele, quando Rosa acabou de pintar. — Nem se vê o lago nem as montanhas. Como se chama este quadro?
— O quadro chama-se As cores do Outono — disse Rosa Ratinha. — Não se vê o lago nem as montanhas, é verdade. Só pintei o Outono, aquilo que sinto quando olho para esta paisagem.
— Ah, agora entendo — disse o gnomo. — É muito interessante.
De repente, levantou-se um vento forte que arrancou a tela do cavalete. Ela foi pelo ar a voar e desapareceu entre as árvores na margem do lago. Rosa Ratinha desceu a montanha e foi buscar o quadro. Tinha dois rasgões e havia muitas folhas, agulhas de pinheiro e pedrinhas coladas na tinta fresca.
— Que pena — disse o gnomo da montanha. — O quadro agora está estragado.
— De forma alguma! — exclamou Rosa Ratinha. — Agora é que está completo! O vento do Outono também participou na pintura e imortalizou-se no quadro com estes dois rasgões. E as folhas que estão coladas também são bem-vindas. Agora, o quadro tem uma história e só agora começou a viver!
Erwin Moser
Mario der Bär
Weinheim Basel, Parabel, 2005
Texto adaptado
Famílias Desavindas
Por uma dessas alongadas ruas do Porto, que sobe que sobe e não se acaba, há-de encontrar-se um cruzamento alto, de esquinas de azulejo, janelas de guilhotina telhados de ardósia em escama. Faltam razões para flanar por esta rua, banal e comprida, a não ser a curiosidade por um insólito dispositivo conhecido de poucos: os únicos semáforos do mundo movidos a pedal, sobreviventes a outros que ainda funcionavam na Guatemala, no início dos anos setenta.
No dobrar do século XIX, Gerard Letelessier, jovem engenheiro francês, fracassou em Paris e em Lisboa, antes de convencer um autarca do Porto de que inventara um semáforo moderno, operado a energia eléctrica, capaz de bem ordenar o trânsito de carroças de vinho, carros de bois e landós da sociedade. A autoridade gostou do projecto e das garrafas de Bordéus que o jovem engenheiro oferecia. Os semáforos estiveram ensejados para a Ponte, mas, de proposta em proposta (sempre se tratava de uma implantação experimental), acabaram na infrequentada Rua Fernão Penteado, na intersecção com a travessa de João Roiz Castelo Branco.
O sistema é simples e, pode dizer-se com propriedade, luminoso. Um homem pedala numa bicicleta erguida a dez centímetros do chão por suportes de ferro. A corrente faz girar um imã dentro de uma bobina. A energia gerada vai acender as luzes de um semáforo, comutadas pelo ciclista. Durante a Primeira Guerra foi introduzida uma melhoria. Uma inspecção da Câmara concluiu que a roda da frente era destituída de utilidade. Foi retirada.
Houve muitos candidatos ao cargo de samaforeiro, embora um equívoco tivesse levado à exigência de que os concorrentes soubessem andar de bicicleta. A realidade corrigiu o dislate porque acabou por ser escolhido um galego chamado Ramon, que era familiar do proprietário dum bom restaurante e nunca tinha pedalado na vida. Mas Ramon era esforçado, cheio de boa vontade. A escolha foi acertada.
SEGUE.....
Durante anos e anos o bom do Ramon pedalou e comutou. Por alturas da segunda Grande Guerra foi substituído pelo seu filho Ximenez, pouco depois da revolução de Abril pelo neto Asdrúbal, e, um dia destes, pelo bisneto Paco. A administração continua a pagar um vencimento modesto, equivalente ao de jardineiro. Mas não é pelo ordenado que aquela família dá ao pedal. É pelo amor à profissão. Altas horas da madrugada, avô, neto e bisneto foram vistos de ferramenta em riste a afeiçoar pormenores. Fizeram questão de preservar a roda de trás e opuseram-se quase com selvajaria a um jovem engenheiro que considerou a roda dispensável, sugerindo que o carreto bastasse.
Os transeuntes e motoristas do Porto apreciam estes semáforos manuais, porque é sempre possível personalizar a relação com o sinal. Diz-se, por exemplo, «Ó Paco, dá lá um jeitinho!» e o Paco, se estiver bem-disposto, comuta, facilita.
Acontece que, mesmo à esquina, um primeiro andar vem sendo habitado por uma família de médicos que dali faz consultório. Pouco antes da instalação dos semáforos a pedal, veio morar o Doutor João Pedro Bekett, pai de filhos e médico singular. Chegou de Coimbra com boa fama mas transbordava de espírito de missão. Andava pelas ruas a interpelar os transeuntes: «Está doente? Não? Tem a certeza? E essas olheiras, hã? Venha daí que eu trato-o.» E nesta ânsia de convencer atravessava muitas vezes a rua. O semáforo complicava. Aproximou-se do Ramon e bradou, severo: «A mim, ninguém me diz quando devo atravessar uma rua. Sou um cidadão livre e desimpedido.» Ramon entristeceu. Não gostava que interferissem com o seu trabalho e, daí por diante, passou a dificultar a passagem ao doutor. Era caso para inimizade. E eis duas famílias desavindas. Felizmente, nunca coincidiram descendentes casadoiros. Piora sempre os resultados.
Ao Dr. Pedro sucedeu o filho João, médico muito modesto. Informava sempre que o seu diagnóstico era provavelmente errado. Enganava-se, era um facto. Mas fazia questão de orientar os pacientes para um colega que desse uma segunda opinião. Herdou o ódio ao semáforo e passava grande parte do tempo à janela, a encandear Ximenez com um espelho colorido.
Já entre o jovem médico Paulo e Asdrúbal quase se chegou a vias de facto. O médico passava e rosnava «Sus, galego». E Asdrúbal, sem parar de dar ao pedal: «Xó, magarefe!» Uma tarde, Asdrúbal levantou mesmo a mão e o doutor encurvou-se e enrijou o passo.
Este Dr. Paulo era muito explicativo. Ouvia as queixas dos doentes, com impaciência, e depois impunha silêncio e começava: «As doenças são provocadas por vírus ou por bactérias. No primeiro caso, chamam-se viróticas, no segundo, bacterianas.» E estava horas nisto, até o doente adormecer. Colegas maliciosos sustentavam que ele praticava a terapia do sono. Mas a maioria dos doentes gostava de ouvir explicar. Alguns até faziam perguntas. Após a consulta, muito à puridade, o Dr. Paulo pedia aos clientes que passassem pelo homem do semáforo e lhe dissessem: «Arrenego de ti, galego!» Isto foi assim com Asdrúbal e, mais recentemente, com Paco.
Há dias, vinha do almoço o Dr. Paulo com uma trouxa-de-ovos na mão, e já trazia entredentes o «arrenego!» com que insultaria o semaforeiro, quando aconteceu o acidente. Ao proceder a um roubo por esticão um jovem que vinha de mota teve uns instantes de desequilíbrio, raspou por Paco e deixou-o estendido no asfalto. Era grave. O Dr. Paulo largou ódios velhos, não quis saber de mais nada e dobrou-se para o sinistrado: «Isto, em matéria de lesões, elas podem ser provocadas por três espécies de instrumentos: contundentes, cortantes, ou perfurantes.»
Uma ambulância levou o Paco antes que o doutor tivesse entrado no capítulo das «manchas de sangue».
Enganar-se-ia quem dissesse que o semáforo ficou abandonado. Uma figura de bata branca está todos os dias naquela rua, do nascer ao pôr do Sol, a accionar o dispositivo, pedalando, pedalando, até à exaustão. É o Dr. Paulo cheio de remorsos, que quer penitenciar-se, ser útil, enquanto o Paco não regressa.
Mário de Carvalho, Contos Vagabundos, Lisboa, Editorial Caminho
PÁSCOA

A Páscoa é uma festa móvel do calendário religioso cristão, que começa a ser preparada após a Quarta-Feira de Cinzas (1º dia da Quaresma). Cai, geralmente, entre abril e maio de cada ano, sete dias depois do Domingo de Ramos, quando começa a Semana Santa.
A data relembra o dia da ressureição de Cristo, de acordo com um decreto do papa Gregório 13, de 24 de fevereiro de 1582. Com ele, o papa também instituía o calendário (dito gregoriano) que vigora hoje em dia nos países ocientais e na maioria das nações do mundo.
Entre o fim da Antigüidade e o começo da Idade Média, as muitas dúvidas históricas e cronológicas que cercam a vida de Jesus foram "resolvidas" num Concílio (uma reunião de bispos) acontecido na cidade de Nicéia em 325 d.C., por convocação do imperador Constantino, o homem que fez do cristianismo a religião oficial do Império romano.
O Concílio de Nicéia estabeleceu que a comemoração da Páscoa se daria no primeiro domingo depois da lua cheia que ocorre no dia 21 de março, o início da primavera no hemisfério Norte. Desse modo, a ressurreição de Cristo seria identificada ao próprio renascimento de uma natureza amena e fértil que o continente europeu experimenta nessa época, após três longos meses de rigoroso inverno.
É bem verdade que essa lua pontual assim não existia, exceto numa tabela da Igreja que facilitava cálculos, mas isso não vem ao caso.
Páscoa judaica
Convém lembrar que o cristianismo se origina no interior do judaísmo e que esta religião também tem a sua Páscoa. Na verdade, é do hebraico "Pessach" que se origina o termo português "páscoa", o espanhol "pascua", o italiano "pasqua" e o francês "pâques".
Mas a Páscoa dos judeus tem um significado diferente da dos cristãos. Ela foi instituída na época de Moisés e comemora a libertação do povo de Israel, que fora escravizado pelos egípcios. Não é difícil visualizar a palavra "pessach" a palavra "passagem", que dela deriva ao longo de muitos séculos. E, nesse sentido, a Páscoa judaica e cristã celebram passagens, respectivamente, do cativeiro à liberdade e da morte à vida.
Agora, você pode estar se perguntando como é que os coelhos e os ovos de chocolate entram nessa história. Pois bem, pela sua grande capacidade de procriar, o coelho tornou-se tradicionalmente um símbolo de fertilidade e, nesse sentido, muito adequado para representar nascimentos e nascimentos. Além disso, várias tradições mitológicas também associam o coelho à Lua e o fato de a lua cheia anterior ao 21 de março determinar a data da Páscoa também relaciona os dois elementos.
Coelhos e ovos
Assim como os coelhos, os ovos também representam o nascimento, por motivos até mais óbvios. Segundo a tradição, os antigos cristãos do Oriente costumavam presentear seus amigos na Páscoa, com ovos coloridos. O costume se difundiu com o cristianismo, chegou a Europa e às Américas. Ovos reais ou feitos de pedras, devidamente enfeitados e pintados, têm um caráter inegavelmente decorativo e se tornaram comuns na Europa - em especial na Alemanha - no século 18.
Na Rússia, na Páscoa de 1884, Peter Karl Fabergé, o joalheiro oficial da corte, criou um ovo de ouro e pedras precisoas com que o imperador (ou czar, em russo) Alexandre 3o presenteou sua esposa. Os ovos da joalheria Fabergé também se transformaram numa tradição e continuam fabricados até hoje - embora seus preços estejam muito além do que podem pagar as pessoas comuns.
Mas quem sabe não veio daí mesmo a idéia de fazer ovos de um material mais barato, mas muito mais saboroso do que o ouro? Os ovos de chocolate surgiram no início do século 20, como bombons especiais para a comemoração da Páscoa. Diversas tradições culturais foram aproveitadas, então, para incentivar as vendas de chocolate, que os coelhinhos escondem nas casas das crianças, sejam ricas ou pobres.
Tudo isso foi tirando um pouco do caráter religioso da Páscoa cristã, principalmente nas grandes cidades. Na verdade, nos dias de hoje, o aspecto cristão da data comemorativa está mais ligado à sexta-feira que a antecede - a Sexta-feira Santa, que rememora a crucificação de Jesus Cristo. O comércio, a propaganda e o marketing têm se apropriado da Páscoa, da mesma maneira que com o Natal - que têm uma essência menos mística e mais festiva.
DIA INTERNACIONAL DA MULHER

"Mulheres gostam "
Mulheres gostam de floresMulheres gostam de xampuMulheres gostam de espelhoMulheres gostam de corpo nu
Mulheres gostam de homensMulheres gostam de gastarMulheres gastam o tempoNão gostam de ver o tempo passar
Algumas gostam de mulheresAlgumas choram demaisMulheres amam os filhosMulheres amam os pais
Mulheres gostam de meiasMulheres gostam de batomMulheres gostam de homens
Que não perguntam se foi bom
Mulheres perdem a horaMulheres pedem pra olharMulheres vão juntas ao banheiroMulheres ainda querem casar
Algumas gostam de mulheresAlgumas choram demaisMulheres amam os filhosMulheres amam os pais
Mulheres geramMulheres cuidamMulheres sabem amarMulheres choramMulheres dançam
Mulheres querem casar
PARABÉNS!
Churrasco Foteado
Volta e meia alguém me lembra do texto sobre um churrasco de fogo de chão. Já que querem vou descritar (descrever por meio da escrita!) um assado que ocorreu semana que passou.
O "uncle" Brod estava botando mais uma velinha no bolo e, como sempre, um churras se propiciou.
Só que desta feita, o assador acertado foi o Tio Ira (basquete do São José), que foi se oferecendo antes que eu pudesse abrir a boca. Buenas, pensei cá com meus botões, vou aproveitar e fotografar todo o preparo desse churrasco, para ilustrar (mais ainda) a minha página sobre o assunto na Internet. Essa mesmo!!!
O churrasco foi cometido na aprazível churrasqueira da náutica do Clube de Caça e Pesca.
Cedo nos movemos para o clube para fazer as checagens preliminares. Logo percebi que Tio Ira é assador com larga experiência nas costas. Faca decente, aventalzinho do Moreira e grelha própria...
como diria o Motta: - Um luxo!
Ambiente checado, carnes desembrulhadas, facas chairadas, carvão espalhado fomos para a beira do arroio espiar o entardecer e espantar o calor.
Começou a trovejar e "relampear", dai à pouco um poderoso raio despenca por perto, só me lembro das nossas calvas branqueando e, como num passe de mágica, estávamos de novo defronte a churrasqueira, acendendo o fogo, enquanto lá fora, o céu desabava em forma de água.
O assador trouxe salsichão do Castro, costela cortada em tiras e um belo vazio. Eu já estava fotografando tudo desde o início, com a minha Canon, essas automáticas moderninhas que fazem tudo, inclusive zoom (aproximação) o que causa as gozações de praxe:
- Máquina erótica.... Zoom pornô... etc. Começou chegar a parceria e o Irapuã jogou um enrolado de salsichão e algumas tiras para a grelha.
O barulhinho do gelo nos copos de uísque e da cerveja sendo aberta, fazia contraponto ao som da graxa pingando nas brasas. “Siguidinha” (parente do ‘arecenzinha”), saiu um salsichão em rodelas para dar início aos trabalhos.
Farinha e um chimichurri com “Adobo” no cacetinho (só em Pelotas!), ajudavam o festival de piadas, balacas e papo furado típicos desse tipo de evento.
Quando saiu a primeira tira de costela, pudemos provar e comprovar a competência do piloto de grelha. Carne dourada, gordurinha crocante e sabor exuberante calaram nossas ávidas bocas por alguns instantes.
Foi chegando a parceria do pós-novela, mais carne foi sendo servida e eu intercalando nacos de carne com clicks da máquina. Supimpa!
Até uma salada de batatas foi relegada ao segundo plano, tal a qualidade do assado. O ponto alto foi vazio, que arrematou o assado nota dez, do mestre Ira.
Seguiu-se aquela conversinha mais calma regada à cerveja,
Até que o “uncle” que aniversariava começou a falar de bife e de pastel, nos obrigando a uma retirada estratégica. Ano que vem tem mais.
Fonte: Esta
As éguas e as onças
Dessa vez, estava ele com um companheiro de viagem, lá pelo meio do Mato Grosso, com uma carga de éguas. Quando saíram para a cidade que iam, um Matogrossense ainda avisou que a estrada era de terra e que, se chovesse, eles teriam problemas e poderiam atolar. Quando o amigo disse que desatolava, o gaiato respondeu: "Só toma cuidado com as onças!"
Dito e feito! Choveu, o caminhão atolou e a noite chegou. As éguas começaram a ficar agitadas e os dois começam a discutir:
- Vai lá ver, Gê! (Gê é meu sogro)
- Eu não, vai você.
- Eu hein! Vai que é onça.
- Ah, e eu posso ir ver a onça.
- E se comer as éguas???
- Antes elas do que eu.
E as éguas ficando agitadas, os dois se borrando de medo dentro do caminhão, não saíam nem para fazer as necessidades. Olhavam para fora, um breu só, não se via nada. Nem abriam o vidro, vai que a onça entra. Uma hora, acordaram, já de manhã, com uma pancada no vidro do caminhão. Era o motorista de um ônibus de bóia fria. Os bóia frias ajudaram a desatolar o caminhão, mas perguntaram se os dois passaram a noite ali. Meio sem jeito, com um pouco de vergonha, responderam que sim, que preferiram não tentar desatolar de noite por causa das onças. Até que um respondeu:
- Aqui não tem onça, não. No meio das fazendas elas não entram, o pessoal espanta.
E lá se foram os dois, atrasados, enlameados e com um caminhão de bóia fria, rindo dos dois.
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O ciclo dos dois compadres tem história muito interessante, e sem dúvida este relato do folclore valparaibano é dos melhores: Moravam numa fazenda dois compadres. Um rico, que era o fazendeiro, outro tão pobre que não possuía de seu nem a tapera onde morava. Andava em farrapos e não tinha muitas vezes o que comer. Num certo Natal, em que as coisas andaram particulamente más, sentados diante do fogão apagado, o compadre pobre e sua mulher conversavam com amargura, que não poderiam cear, por não ter o que. — Nosso compadre bem poderia ter se lembrado de nós, com uma leitoinha, não mulher? A esse diminutivo carinhoso de leitoa, lambeu ele mesmo os lábios. — É mesmo. E a mulher também lambeu os beiços de vontade de comer carne assada. — E se a gente fosse roubar uma...? — Credo! — exclamou a mulher, porém ficou pensativa. Permaneceram em silêncio longo tempo, e, por fim, o marido resolveu: — Quer saber de uma coisa, mulher? Nós vamos roubar uma leitoa do compadre. Ele é miserável, não deu por bem, vai dar sem querer. Lá se foram, marido e mulher, para a aventura. Ele seguiu abaixado pelo meio do mato, pois queria entrar no chiqueiro pelos fundos. A mulher pôs um lençol na cabeça e ficou numa santa cruz à beira do caminho, fingindo-se de fantasma, pa |